sábado, 26 de dezembro de 2015

Caligrafia nova

O passado tem sido a tinta da minha caneta,
As histórias todas escritas num tom errado.
Porque discorrem verdades que já ninguém altera,
Num tempo verbal semicerrado...

Os versos pensados como os imaginei,
A verdade memorizada como a memorizei,
E a dor apertada como a apertei;
Num vazio vago que no vento voei.

Escrevo agora caligrafia nova,
A melodia inacabada que desconheço.
O futuro caminha calmo e a passo directo;
Mas o destino, esse, será sempre secreto.


«67. O passado é aquilo que conseguimos fazer do futuro»

- Para Onde Vão os Guarda-Chuvas - Afonso Cruz

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Folha em branco

Nada é mais belo
E nada é mais assustador,
do que esta folha em branco
onde escrevo e sou melhor.

Aqui nada existe

                      porém,

                               foi aqui que tudo imaginei;

As linhas arrastam-se em novos sentidos
Que nem eu decifrei;

O futuro vejo-o escondido
num pergaminho ainda por escrever
Se o quiser saber hoje
A verdade desta folha em branco devo beber.


domingo, 16 de agosto de 2015

«Mudaste»


«Mudaste». Disseste tu.
Como se me bajulasses sem eu saber...
De facto, mudei e mudei-me
Cansei-me de querer saber.

Mudei, mas no sentido do que está certo:
Acertei os ponteiros da rosa-dos-ventos.
Do relógio fiz meu unguento;
Fugi do que me causava tormento,
Sei que o mau tempo dura só um momento.

Dei tantos passos para longe de ti
E agora tentas arrastar-me de novo
Para a escuridão em que vives?
Não penses que esqueço a dor que infliges.

Da ilusão, da queda e da força
A trindade que me faz quem sou hoje
A minha voz está cansada
Mas o meu coração nunca morre.

Aprendi que podemos curar-nos,
Que nunca perdemos o que temos de melhor

O amor está em mim
E longe de ti, da falsidade e do desamor.



segunda-feira, 29 de junho de 2015

Um amor por escrito

Tinha um amor por escrito
mas esqueci-me de o escrever.

Guardei a caneta, 
decorei as palavras
mas não mas as usei.

Gastou-se a tinta,
na secura das tramas da vida.

Guardei as ideias
a sete chaves fechadas;
apaguei as imagens
e de tudo fiz miragens.

O amor não foi publicado, 
nem lido por ninguém.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Se podemos vislumbrar

Se podemos vislumbrar
aquilo que mais desejamos
não devemos sufocar
os nosso atos para lá chegar.

E se o caminho se dificulta
e tropeçamos nas pedras soltas,
devemos continuar de joelhos esfolados
e gargantas secas e roucas.

Dos cobardes não reza a história,
daqueles que se escondem e desistem,
sugando a vida alheia;

Esses que também já encontrámos 
e nos tentaram levar ao fundo;
são incapazes contra nós
e contra a luz deste nosso mundo.




domingo, 24 de maio de 2015

sonâmbula

quero esquecer os ecos
das vozes que só me deixaram aturdida
sozinha, sem chão,
de mim mesma esquecida.

quero viver de novos enredos
e de teatros vividos em novos palcos.

se o que vemos é verdade
e o que passámos o vento levou,
o que nos resta nesta demanda
é re-escrever o que do sonho se apagou.

Foto: Lisa Sorgini 


quarta-feira, 13 de maio de 2015

a minha poesia desnutrida

Posso escrever de caneta, lápis,
ou de dedos no teclado;
mas só sei escrever com o coração nas mãos
e os pensamentos enrodilhados...
Preciso de discorrer os meus anseios
como a seiva corre nas flores da primavera.
As letras preenchem-me a mente
e os poemas correm-me nas veias
«o amor ainda pode acontecer.»
é um rumor que o vento me sussurra;
Se nada for verdade nestas minhas teorias
e eu continuar a alimentar-me delas?
Sobra-me esta metamorfose. Constante. Desmedida.
E a minha poesia desnutrida.



sábado, 18 de abril de 2015

tenho um poema

tenho um poema perdido
no fundo do caderno, 
que fala de desamor;
tenho um poema ferido
que chorei sem precisar falar ou supor;
tenho uma alma em metamorfoses
que neste poema se cura;
tenho uma calma à noite e um furor na aurora
tenho um poema que escolhe não ser encontrado
porque o destino o deteriora.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Recomeço

Os rumos são sempre incompletos
movediços como as areias do deserto.

Aprendemos a velejar o barco
mesmo com marés altas
E o canto das sereias.

O caminho é labiríntico
Os sonhos que antes eram nítidas imagens
                                           
tornaram-se pó...

...no esquecimento de cada manhã;

Esqueço quem sou, nome,  idade e endereço
Mas para cada fim de página que escrevo,
posso criar um recomeço.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Um desamor sabe queimar

Vim deixar o apontamento
De que é curta a frase
E o momento.
Não vivo sem o pensamento
Do que já não devia lembrar.

Apago a luz:
A vela do tormento.
No escuro, ainda me ausento
E, espero, nunca mais voltar.

Mas a memória é meu fogo lento
E um desamor sabe queimar.