quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sem argumentos


Não se Reconquista o Amor com Argumentos
Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. 
Julgas que me deixarei determinar por argumentos? 
Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos. 
Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de um processo em que ela prova que tem razão? 
O processo irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa já tu a não amas. 
Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio, teve a ideia de cantar a mesma canção triste que cantava quando noiva. 
Essa canção triste ainda tornou o homem mais furioso. 
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal como ele era quando a amava. 
Mas para isso precisaria de um génio criador, porque teria de carregar o homem de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego de uma inclinação para o mar que fará dele construtor de navios. 
Só assim cresceria essa árvore que depois se iria diversificando. 
E ele havia de pedir de novo a canção triste. 
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. 
Não te confessarei o meu sofrimento, porque ele te faria desgostar de mim. 
Não te farei censuras: elas irritar-te-iam justamente. 
Não te direi as razões que tu tens para amar-me, porque não as tens. 
A razão de amar é o amor. Também não me mostrarei mais, tal como tu me desejavas. Porque tu já não desejas esse. Se não, amar-me-ias ainda. 
Mas educar-te-ei para mim. E, se sou forte, mostrar-te-ei uma paisagem que fará de ti meu amigo. 


[Antoine de Saint-Exupéry, in Cidadela]

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